por Katerina Volcov (*)
Meio
ambiente, proteção florestal, mudanças climáticas, Copenhaguen, G-8,
desmatamento, Bill Clinton no Brasil e sustentabilidade podem ser
consideradas as grandes chamadas nesta semana, ainda mais com o dia do
meio ambiente. E eu me pergunto o que o pessoal que mora em Bonsucesso
pensa sobre isso.
Tive a oportunidade de fazer um tour em
transporte coletivo por alguns bairros da periferia de Guarulhos,
incluindo o de Bonsucesso. Não posso afirmar que as preocupações
ambientais fazem parte da agenda local do bairro porque não desenvolvi
nenhuma pesquisa no local indicado, mas não tenho como não mencionar o
que os meus olhos pequenos burgueses puderam observar.
Sim, devo admitir aos leitores mais críticos que sou alguém que cursou
uma universidade e alguns outros cursos, e, por isso, também devo me
considerar como tal. Já dizia Bahktin que todo discurso é ideológico
por natureza.
Casas em construção irregular, inúmeras ruas sem
pavimentação, esgotos a céu aberto, quadra poliesportiva semiabandonada
onde a terceira idade caminha, nenhum outdoor, nenhum grande magazine,
alguns botecos, lojinhas feitas na garagem, vendinhas, muito barro,
pontos de ônibus depredados, falta de transporte coletivo, ônibus
lotado, uma escala de cor que vai do cinza, passa pelo ocre e vai pro
branco sujo, numeração residencial díspare, poucas escolas, muitas
igrejas e ruas sem árvores, sem calçadas e sem flores.
Claro que isso tudo não estava localizado na avenida próxima ao
shopping Center Bonsucesso ou à Unifesp. É nas entranhas do bairro, nas
vielas por onde passa o circular que podemos observar essa natureza
morta.
Com base naquilo que vi, continuei a me questionar se por
acaso eu fosse até a quadra onde estavam aqueles senhores e senhoras ou
mesmo se conversasse com as pessoas que passavam pelo ponto de ônibus o
que eles entendiam por sustentabilidade, coleta seletiva de lixo.
Imaginei inúmeras respostas. E por falta de tempo e disponibilidade
naquele instante, não fiz a pergunta. Por isso, não posso afirmar nada.
Mas os questionamentos permaneceram.
Como falar de meio ambiente
num local onde não há árvore nem calçada? Como pensar em
sustentabilidade quando a preocupação é “vou conseguir um emprego esta
semana?” ou “preciso ir ao hospital levar meu filho doente e tentar
conseguir um remédio”. Pensar em meio ambiente e sustentabilidade exige
que pensemos sobre itens básicos como geração de riqueza e conhecimento.
Entre
o universo sustentável dos eventos e cursos de gestão nessa área e a
realidade crua e nua de Bonsucesso há um abismo. Não dá para exigir uma
postura sustentável de alguém que mora em um local onde nem sabe ao
menos o número de sua residência. Pensar somente no desmatamento da
Amazônia ou a entrada agressiva do agronegócio no norte do país é
importante e se faz necessário.
Porém, se considerarmos o meio ambiente como o local onde estamos, é
imprescindível que novas formas de se olhar e se praticar
responsabilidade socioambiental sejam dispostas em locais como
Bonsucesso ou em inúmeras favelas inseridas em bairros de classe média
de São Paulo, como a favela do Buraco Quente, da Rua Alba, Águas
Espraiadas e por aí vai.
É preciso que as preocupações em
relação ao meio ambiente não se restrinjam a plantar árvores e
distribuir mudas com logomarcas de grandes empresas, mas sim, que essas
mesmas instituições juntamente com organizações populares possam chegar
a um consenso das reais necessidades da população e que projetos e
políticas públicas com incentivos de empresas locais possam trabalhar
em prol de um desenvolvimento local que traga saúde, educação, cultura
e geração de prosperidade.
(*) Katerina Volcov é diretora da Soma Agência e desenvolve projetos de responsabilidade socioambiental